Voto
Distrital Misto: parlamento diverso, democracia fortalecida
Alfredo
Cotait Neto, presidente da Confederação das Associações Comerciais e
Empresariais do Brasil (CACB)
O setor do associativismo no Brasil tem uma grande
preocupação com a forma que as eleições e a votação ocorrem no país, já há
muitos anos. Somos críticos do voto proporcional, modelo que vigora hoje, por
entendermos que ele é desigual. Nas eleições de 2026, presenciamos mais
exemplos de que esse modelo não traz representatividade real, nem vínculo entre
eleitor e eleitos.
Por isso, a Confederação das Associações Comerciais e
Empresariais do Brasil (CACB) volta ao tema, dessa vez em uma mobilização pelo
projeto de lei que muda o voto no Brasil para distrital misto, em substituição ao
voto proporcional. Pesquisas recentes apontam que 67% dos eleitores não se
lembram dos nomes que escolheram para deputado, logo após as eleições. O dado
representa dois terços dos eleitores, o que é muito expressivo.
Nossa defesa é de que o modelo de votação distrital seja
implementado já nas eleições de 2030. Vereadores, deputados estaduais e
federais devem ser escolhidos em duas listas, cada uma recebendo metade das
vagas. Uma delas seria a proporcional, já existente. A outra, traz uma divisão
geográfica feita de acordo com dados do IBGE, para fazer uma divisão
territorial dos estados do Brasil. Com base na criação desses distritos, os
partidos devem apresentar nomes e, o mais eleito, leva a vaga. Isso levará o
Brasil a ter uma representatividade real, de todo nosso povo, por todo
território.
Da forma como é hoje, por exemplo, o estado de São Paulo é um
único colégio eleitoral, que elege 70 deputados federais. Isso torna distante a
relação eleitor/deputado. Afinal, em SP, são 645 municípios e 34 milhões de
eleitores. O candidato precisa pedir votos no estado inteiro e, além disso, o
voto dado a um nome pode ajudar a eleger outro, muitas vezes com baixa
expressão política. É o fenômeno comumente chamado de “puxador de votos”.
Resultado: o cidadão escolhe, mas termina o processo eleitoral sem saber de
quem cobrar.
Países que já utilizam o sistema de voto distrital têm
democracias com alto índice de fiscalização e representatividade. Alguns deles
são o Canadá, a Alemanha e o Reino Unido, todos com mais de cem anos de
implantação do voto distrital. Hoje, mais da metade da população mundial já
utiliza alguma forma esse modelo. Mais proximidade significa mais
representatividade.
O resultado prático da mudança é benéfico ao país e ao
processo eleitoral. Ser próximo do candidato eleito faz com que a sociedade
consiga se comunicar de forma mais célere, fazendo com que as demandas da
região cheguem com mais facilidade. Percebe-se também uma redução na corrupção,
porque há uma maior fiscalização de cada mandato. Além de obrigar que o
parlamentar eleito pelo voto distrital dedique mais atenção aos municípios do
seu distrito, já que ele não precisa de votos de outra região.
Outras vantagens já comprovadas dão conta de que as campanhas
ficam mais baratas, a abstenção cai e lideranças locais ganham força, tornando
o sistema político mais diverso e oxigenado. Por fim, a adoção do voto
distrital misto fará com que os parlamentares saiam de uma “zona de conforto”,
aquele baixo senso de responsabilização, que vem com a falta de vínculo com a
população.
É chegada a hora de fazer com quem os brasileiros se lembrem,
ao longo dos quatro anos, em quem votaram. Essa é uma memória pessoal,
importante, e que precisa ser fortalecida em prol da democracia do nosso país.
Um projeto de lei aguarda votação final na Câmara dos Deputados, depois de ter
sido aprovado no Senado e validade pelo STF e pelo TSE. Passado o processo
eleitoral de 2026, a preocupação dos parlamentares precisa ser com o
aprimoramento das próximas eleições.
Recentemente, uma boa notícia: de volta aos trabalhos no
Congresso depois das eleições, o presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, já
se colocou de forma favorável ao voto distrital. Diante de líderes de muitos
partidos - como União Brasil, PP, PSB, PSD, Republicanos, MDB, federação
PSDB-Cidadania e Podemos – ele defendeu que o tema seja pautado ainda esse ano,
para que comece a valer em 2034. O presidente Hugo Motta considera que as
eleições de 2030 seriam uma transição. Mas, ele pode saber que com o apoio do
setor do associativismo – municipalistas por origem e por convicção – essa
mudança será facilmente aplicada, podendo já valer em 2030.
A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do
Brasil (CACB) se coloca à disposição dos líderes e do relator do tema –
deputado Domingos Neto (PSD-CE) – para aprofundar as discussões. Acreditamos
que quatro anos são suficientes para que a Justiça Eleitoral se organize e a
população compreenda as mudanças. O tempo é hoje. Nosso país precisa avançar em
direção às democracias mais representativas do mundo. Vivemos esse atraso há –
pelo menos - 9 anos, desde que o texto foi aprovado no Senado. Quando cada
região sabe quem é o seu representante, a comunidade ganha um canal mais direto
com o Congresso. É isso que temos que buscar.